
Nascido na cidade de Figueres, a 11
de maio de 1904, o pintor catalão Salvador Dalí foi
batizado com o mesmo nome de um irmão que morrera três
anos antes vítima de meningite. O fato de ser obrigado a
levar, ainda pequenino, flores à tumba de alguém que
tinha seu próprio nome, criaria nele uma intensa
instabilidade emocional. Em conversas com pessoas mais
próximas, Dalí já adulto chegava a mencionar o
seu otro yo (outro eu). Artista irônico, intrigante,
fanfarrão, surpreendente, polêmico, provocador e
revolucionário, um dos mais importantes do século XX,
Dalí completaria, hoje, 100 anos de idade, não fosse
o ataque cardíaco que interrompeu, em 1989, sua brilhante
trajetória.
Veja algumas obras de
Dalí 
Impossível afirmar com
certeza, mas aquele fato dramático da infância pode
tê-lo aproximado do surrealismo, movimento cuja premissa
básica é o afastamento da realidade ordinária.
Fato é que Dalí criou um mundo pictórico
só seu e nada medíocre. Segundo André Breton,
no manifesto divulgado em 1924, através do qual se
lançaram as bases do movimento surreal, a idéia era
"resolver a contradição até agora vigente
entre sonho e realidade pela criação de uma realidade
absoluta, uma supra-realidade".
O texto informava que a
importância do mundo onírico, irracional e
inconsciente, estava ligada diretamente ao uso que os artistas
faziam da obra de Sigmund Freud e da psicanálise, o que os
liberava para explorar nas artes o imaginário e os impulsos
ocultos da mente. Como se freqüentasse uma sessão de
psicanálise na qual ele era ao mesmo tempo analisado e
terapeuta, Dalí mergulhou fundo na proposta apresentando
para o mundo suas imagens duplas, seus relógios moles, e
elefantes com pernas finas. "Não interessa se os
relógios são moles ou duros, o que importa é
que eles dêem a hora certa", rebateu, diante dos burburinhos
em torno da obra.
Na maioria dos seus trabalhos, ele
ofereceu ao observador a chance de perceber numa mesma obra
diferentes elementos, na medida em que mudava de perspectiva.
É o caso de O mercado de escravos (1940), no qual aparece a
imagem encoberta do filósofo francês Voltaire. O
artista que fez sua primeira reprodução da Venus de
Milo em barro, com apenas 8 anos de idade, marcou o
imaginário do século passado com obras como a
conhecidíssima A persistência da memória
(1931), a tal dos relógios moles. E tinha plena
consciência do próprio talento.
"Toda manhã quando acordo eu
experimento uma excepcional alegria - a alegria de ser Salvador
Dalí - e me pergunto de súbito: 'Que coisas
maravilhosas este Salvador Dalí vai aprontar hoje?'", disse,
certa vez.
Dalí não tinha
motivos para se fazer de modesto. "Serei um gênio, talvez
incompreendido, mas serei gênio", alardeava, ainda no
começo da carreira. O catalão reuniu-se aos
companheiros de movimento surrealista nos anos 1920, quando
mudou-se para Paris. Em seus tempos de França, foram
produzidas El gran masturbador, El espectro del sex-appeal, El
juego lúgubre, e La persistencia de la memoria, entre
outras.
Pouco depois, em 1929, Salvador
Dalí conhece a russa Helena Diakonova, que se tornaria sua
musa, empresária e esposa. Ao encontrá-lo, Gala (como
era conhecida) vaticinou: "Não nos separaremos nunca mais".
Viveram juntos por 53 anos, até a morte dela, em 1982. A
devoção com que tratava a mulher despertou a ira de
muitos críticos. Gala foi responsável pela escalada
financeira de Dalí e organizou a vida do homem que era
incapaz até de providenciar coisas mínimas, como uma
passagem de avião.
Também em 1929, Dalí
escreveu o roteiro para Um cão andaluz, dirigido pelo
espanhol Luís Buñuel. A idéia era chocar as
platéias com imagens bizarras como a famosa cena da
lâmina que corta ao meio o globo ocular de uma pessoa e as
formigas que surgem do nada nas mãos de um homem. É
considerado uma experiência surrealista levada até as
últimas conseqüências. O público recebeu
bem o filme, mas Buñuel, prevendo o pior, assistira à
premiére com os bolsos cheios de pedras para se defender da
turba. Dois anos depois, Dalí repetiu a parceria com
Buñuel em A idade do ouro.
Talvez a mais intrigante
experiência cinematográfica de Salvador Dalí
tenha sido Destino, gestada em 1946 com Walt Disney. Com
direção de John Hench, pretendia ser uma cena
poética sobre o amor e o tempo, embalada pela
canção homônima do espanhol Armando Dominguez.
Também deveria atender à pretensão de Disney
em provar que desenho animado poderia ser uma forma de arte. O
curta mostra figuras humanóides deformadas, montadas sobre
cascos de tartaruga que, quando se juntam, apresentam a forma de um
sino que, por sua vez, se transforma em bailarina. O objetivo era
levar ao espectador imagens que ele reconheceria de uma forma e, em
seguida, visualizaria de modo completamente diferente.
"Vim a Hollywood e tropecei com
três grandes surrealistas americanos: os Irmãos Marx,
Cecil B. DeMille e Walt Disney", escreveu Dalí, em 1937,
numa carta para o então amigo André Breton. O
material, que ficou esquecido por 57 anos, foi recuperado no ano
passado por uma equipe de 25 peritos em animação sob
a supervisão de Roy Disney, sobrinho de Walt e
vice-presidente da companhia, e concorreu ao Oscar 2004 de melhor
curta animado. A fita teve seu conceito e desenho originais
preservados. O processo de conclusão da peça (que
concentrou, em seis minutos, 150 desenhos e pinturas feitos em oito
meses de trabalho de Dalí) foi orientado por Hench,
atualmente com 95 anos de idade.
Como já sabia, desde o
começo da carreira, que seria gênio e também
incompreendido, Dalí não dava a mínima
às críticas contra suas convicções
políticas de direita (assumiu sua simpatia pelo ditador
espanhol Francisco Franco) e à forma que conduzia a
carreira. Não hesitou em romper com os surrealistas.
André Breton, mentor do movimento e agora ex-amigo, chegou a
criar o anagrama Avida dollars com o nome do pintor. Dalí
achava que os ex-companheiros o censuravam pelo fato de não
ter virado comunista e, pior das heresias, ter apresentado
Lênin com as nádegas moles no desenho O enigma de
Guilherme Tell (1933). "A diferença entre mim e os
surrealistas é que eu sou surrealista", escrachou.
Salvador também flertou com
a cultura pop. "O chocolate Lanvin me deixa louco", dizia no
comercial de tevê da guloseima francesa, veiculado em 1969,
com os olhos arregalados e o excêntrico bigode levantado.
Desconstruiu objetos e fez o famoso sofá vermelho no formato
dos lábios de Mae West, e o telefone-lagosta que
influenciariam o ícone Andy Warhol. Criou bolsas, carteiras
e pastas de couro para regalar os amigos, dentre os quais o duque e
a duquesa de Windsor. Os acessórios, que produziu em
edições limitadas na década de 60, foram
atualizados no ano passado e serão relançados no
mercado de luxo de vários países. No Brasil, os mimos
de Dalí devem chegar ao preço médio de R$5,9
mil.
Embora criasse imagens alucinantes
(o que estimulou a imaginação de algumas pessoas,
fazendo-as crer que o artista usava substâncias
químicas), consta que ele nunca usou drogas. "Não
consumo drogas, eu sou as drogas". Dalí parou de pintar
quando Gala morreu e diminuiu suas aparições
públicas. Morreria sete anos depois da amada. Sempre que era
perguntado sobre o motivo de usar aquele bigode tão
irreverente, o gênio catalão respondia ironicamente:
"Para passar despercebido". Provavelmente o único desejo que
não conseguiu realizar.
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